A BARBIE
(de Ruben Alves)
As bonecas foram os primeiro brinquedos inventados pelos homens. Por isso eu acho que os pais fazem muito bem em dar uma boneca de presente para as suas filhinhas.
Com uma exceção, é claro: se a boneca não for a Barbie. Porque a Barbie não é uma boneca. É uma bruxa.
Posso imaginar o espanto nos seus olhos. Eu imagino também os seus pensamentos: O Rubem perdeu o juízo. A Barbie é uma boneca de plástico, não mexe, não pensa, não fala. E agora ele diz que ela é uma bruxa...
Pois eu digo que a Barbie é uma bruxa. Bruxa enfeitiça. Enfeitiçada, a pessoa deixa de ter pensamentos próprios. Só pensa o que a bruxa manda.
De novo você vai me contestar, dizendo que a Barbie não fala e não tem vontade. Por isso não pode nem dar ordens e nem ser obedecida. Errado.
O fantástico é que ela, sem falar e sem ter vontade, tenha mais poder sobre a alma da criança que os pais. Nascida em 1959, em 1970 mais de 12 milhões já tinham sido vendidas. Um negócio da China. E por quê? Porque a Barbie, diferente das bonecas antigas, bebês que se contentam com uma chupeta e um chocalho, tem uma voracidade insaciável.
A Barbie está sempre incompleta. Portanto, com ela vem sempre uma pitada de infelicidade. Aliás, essa é a regra fundamental da sociedade consumista: é preciso que as pessoas se sintam infelizes com o que têm, para que trabalhem e comprem o que não têm. A Barbie tem esse poder: quem a tem está sempre infeliz porque há sempre algo que não se tem, ainda. E os engenheiros da inveja, a serviço das fabricas, se encarregam de estar sempre produzindo esse novo objeto que ainda não foi comprado. Mas inútil comprar. Porque logo outro será produzido. É uma cenoura na frente do burro... Ela nunca será comida.
Quem dá uma Barbie para uma criança põe a criança numa arapuca sem saída. Porque, ao ter uma Barbie, ela ingressa no Clube das meninas que têm Barbie. E as conversas, nesse clube, são assim: Eu tenho o chalé da praia da Barbie. Você não tem. Ao que a outra retruca: Não tenho chalé, mas tenho marido loiro da Barbie, que você não tem.
Mas há uma saída. E, para ela, procuro sócios. Vamos começar a produzir o próximo e definitivo complemento para a bruxa de plástico: urnas funerárias para a Barbie. “Por vezes o feitiço só se quebra com o assassinato da feiticeira - por mais bonitinha que ela seja...”
Crônica de Ruben Alves, extraída do livro Teologia do Cotidiano, publicada no Correio Popular, de Campinas, em 10 de janeiro de 1994.
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