terça-feira, agosto 09, 2011

Paranoia ou mistificação (mais uma vez)

PARANOIA OU MISTIFICAÇÃO
Monteiro Lobato
Estado de São Paulo, 20/12/1917

Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêm as coisas e em consequência fazem arte pura, guardados os eternos ritmos da vida, e adotados, para a concretização das emoções estéticas, os processos clássicos dos grandes mestres.
Quem trilha esta senda, se tem gênio é Praxiteles na Grécia, é Rafael na Itália, é Reynolds na Inglaterra, é Dürer na Alemanha, é Zorn na Suécia, é Rodin na França, é Zuloaga na Espanha. Se tem apenas talento, vai engrossar a plêiade de satélites que gravitam em torno desses sóis imorredouros.
A outra espécie é formada dos que vêm anormalmente a natureza e a interpretam à luz das teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência; são frutos de fim de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz do escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento.
Embora se dêem como novos, como precursores de uma arte a vir, nada é mais velho do que a arte anormal ou teratológica: nasceu como a paranóia e a mistificação.
De há muito que a estudam os psiquiatras em seus tratados, documentando-se nos inúmeros desenhos que ornam as paredes internas dos manicômios.
A única diferença reside em que nos manicômios essa arte é sincera, produto lógico dos cérebros transtornados pelas mais estranhas psicoses; e fora deles, nas exposições públicas zabumbadas pela imprensa partidária mas não absorvidas pelo público que compra, não há sinceridade nenhuma, nem nenhuma lógica, sendo tudo mistificação pura.
Todas as artes são regidas por princípios imutáveis, leis fundamentais que não dependem da latitude nem do clima.
As medidas da proporção e do equilíbrio na forma ou na cor decorrem do que chamamos sentir. Quando as coisas do mundo externo se transformam em impressões cerebrais, “sentimos”. Para que sintamos de maneira diversa, cúbica ou futurista, é forçoso ou que a harmonia do universo sofra completa alteração, ou que o nosso cérebro esteja em desarranjo por virtude de algum grave destempero.
Enquanto a percepção sensorial se fizer no homem normalmente, através da porta comum dos cinco sentidos, um artista diante de um gato não poderá “sentir” senão um gato; e é falsa a “interpretação” que o bichano fizer do totó, um escaravelho ou um amontoado de cubos transparentes.
Estas considerações são provocadas pela exposição da sra. Malfatti, onde se notam acentuadíssimas tendências para uma atitude estética forçada no sentido das extravagâncias de Picasso & Cia.
Essa artista possui um talento vigoroso, fora do comum. Poucas vezes, através de uma obra torcida em má direção, se notam tantas e tão preciosas qualidades latentes. Percebe-se, de qualquer daqueles quadrinhos, como a sua autora é independente, como é original, como é inventiva, em que alto grau possui umas tantas qualidades inatas, das mais fecundas na construção duma sólida individualidade artística.
Entretanto, seduzida pelas teorias do que ela chama arte moderna, penetrou nos domínios de um impressionismo discutibilíssimo, e pôs todo o seu talento a serviço duma nova espécie de caricatura.
Sejamos sinceros: futurismo, cubismo, impressionismo e tutti quanti não passam de outros ramos da arte caricatural. É a extensão da caricatura a regiões onde não havia até agora penetrado. Caricatura da cor, caricatura da forma – mas caricatura que não visa, como a verdadeira, ressaltar uma idéia, mas sim desnortear, aparvalhar, atordoar a ingenuidade do espectador.
A fisionomia de quem sai de uma de tais exposições é das mais sugestivas.
Nenhuma impressão de prazer ou de beleza denunciam as caras; em todas se lê o desapontamento de quem está incerto, duvidoso de si próprio e dos outros, incapaz de raciocinar e muito desconfiado de que o mistificaram grosseiramente.
Outros, certos críticos, sobretudo, aproveitam a vasa para “épater le bourgeois” (chocar o burguês). Teorizam aquilo com grande dispêndio de palavreado técnico, descobrem na tela intenções inacessíveis ao vulgo, justificam-nas com a independência de interpretação do artista; a conclusão é que o público é uma besta e eles, os entendidos, um grupo genial de iniciados nas transcedências sublimes duma Estética Superior.
No fundo, riem-se uns dos outros – o artista do crítico, o crítico do pintor. É mister que o público se ria de ambos.
“Arte moderna”: eis o escudo, a suprema justificação de qualquer borracheira.
Como se não fossem moderníssimos esse Rodin que acaba de falecer, deixando após si uma esteira luminosa de mármores divinos; esse André Zorn, maravilhoso virtuose do desenho e da pintura; esse Brangwyn, gênio rembrandtesco da babilônia industrial que é Londres; esse Paul Chabas, mimoso poeta das manhãs, das águas mansas e dos corpos femininos em botão.
Como se não fosse moderna, moderníssima, toda a legião atual de incomparáveis artistas do pincel, da pena, da água-forte, da “ponta-seca”, que fazem da nossa época uma das mais fecundas em obras primas de quantas deixaram marcos de luz na história da humanidade.
Na exposição Malfatti figura, ainda, como justificativa da sua escola, o trabalho de um “mestre” americano, o cubista Bolynson. É um carvão representando (sabe-se disso porque o diz a nota explicativa) uma figura em movimento. Ali está entre os trabalhos da sra. Malfatti em atitude de quem prega: eu sou o ideal, sou a obra prima; julgue o público do resto, tomando-me a mim como ponto de referência.
Tenhamos a coragem de não ser pedantes; aqueles gatafunhos não são uma figura em movimento; foram isto sim, um pedaço de carvão em movimento. O sr. Bolynson tomou-o entre os dedos das mãos, ou dos pés, fechou os olhos e fê-lo passear pela tela às tontas, da direita para a esquerda, de alto a baixo. E se não fez assim, se perdeu uma hora da sua vida puxando riscos de um lado para outro, revelou-se tolo e perdeu o tempo, visto como o resultado seria absolutamente igual.
Já em Paris se fez uma curiosa experiência: ataram uma brocha à cauda de um burro e puseram-no de traseiro voltado para uma tela. Com os movimentos da cauda do animal a brocha ia borrando um quadro...
A coisa fantasmagórica disso resultante foi exposta como um supremo arrojo da escola futurista, e proclamada pelos mistificadores como verdadeira obra prima que só um ou outro raríssimo espírito de eleição poderia compreender.
Resultado: o público afluiu, embasbacou, os iniciados rejubilaram – e já havia pretendentes à compra da maravilha quando o truque foi desmascarado.
A pintura da sra. Malfatti não é futurista, de modo que estas palavras não se lhe endereçam em linha reta; mas como agregou à sua exposição uma cubice, queremos crer que tende para isso como para um ideal supremo.
Que nos perdoe a talentosa artista, mas deixamos cá um dilema: ou é um gênio o sr. Bolynson e ficam riscadas desta classificação, como insignes cavalgaduras cortes inteiras de mestres imortais, de Leonardo a Rodin, de Velazquez a Sorolla, de Rembrandt a Whistler, ou... vice versa. Porque é de todo impossível dar o nome de obra d’arte a duas coisas diametralmente opostas como, por exemplo, a “Manhã de Setembro” de Chabas e o carvão cubista do sr. Bolynson.
Não fosse profunda a simpatia que nos inspira o belo talento da sra. Malfatti, e não viríamos aqui com esta série de considerações desagradáveis. Como já deve ter ouvido numerosos elogios à sua nova atitude estética, há de irritá-la como descortês impertinência a voz sincera que vem quebrar a harmonia do coro de lisonjas.
Entretanto, se refletir um bocado verá que a lisonja mata e a sinceridade salva.
O verdadeiro amigo de um pintor não é aquele que o entontece de louvores; sim, o que lhe dá uma opinião sincera, embora dura, e lhe traduz chãmente, sem reservas, o que todos pensam dele por detrás.
Os homens têm o vezo de não tomar a sério as mulheres artistas. Essa é a razão de as cumularem de amabilidades sempre que elas pedem opinião.
Tal cavalheirismo é falso; e sobre falso nocivo. Quantos talentos de primeira água não transviou, não arrastou por maus caminhos, o elogio incondicional e mentiroso? Se víssemos na Sra. Malfatti apenas a “moça prendada que pinta”, como as há por aí às centenas, calar-nos-íamos, ou talvez lhe déssemos meia-dúzia desses adjetivos bombons que a crítica açucarada tem sempre à mão em se tratando de moças.
Julgamo-la, porém, merecedora da alta homenagem que é ser tomada a sério e receber a respeito de sua arte uma opinião sinceríssima – e valiosa pelo fato de ser o reflexo da opinião geral do público não idiota, dos críticos não cretinos, dos amadores normais, dos seus colegas de cabeça não virada – e até dos seus apologistas.
Dos seus apologistas, sim, dona Malfatti, porque eles pensam deste modo... por trás.

domingo, maio 22, 2011

Segundo Conjunto 2011

Aqui estão alguns links pra post sobre os seguintes assuntos:

Barroco Brasileiro:
Geral:
http://prosalunos.blogspot.com/2011/04/barroco-brasileiro.html
http://prosalunos.blogspot.com/2008/04/barroco-brasileiro.html

Barroco Mineiro
http://prosalunos.blogspot.com/2008/04/barroco-mineiro.html

Missão Artística Francesa:

http://prosalunos.blogspot.com/2008/06/misso-artstica-francesa.html

Academia Imperial de Belas Artes:

Nesse post falo também de Almeida Junior (mas não estará na prova - já que só na 52 consegui chegar nesse artista).
http://prosalunos.blogspot.com/2010/05/academia-imperial-de-belas-artes.html

Lembre-se que terão coisinhas sobre História da Arte Geral! Não adianta reclamar! rs! É pro bem de vocês!

Como disse na sala de aula: olhem as PÁGINAS 12 E 13!

Ah, só pra constar, aqui está uma foto da Galeria Imperial com as duas imagens que lemos em sala de aula: a BATALHA DOS GUARARAPES e a BATALHA DO AVAÍ.


Pequena a sala, né?! hehehehehe!

Abraços!

segunda-feira, maio 16, 2011

ESCHER no CCBB


Diferente de algumas críticas que li, não achei a exposição "O Mundo Mágico de Escher" no Centro Cultural do Banco do Brasil decepcionante.
Quando cheguei dei de cara com uma fila enorme. Isso me deixa um pouco chateada: odeio filas! Mas ao mesmo tempo me fez ficar feliz! Como arte educadora, acho o maior barato saber que as pessoas fazem fila pra ver ARTE! E tinha gente de todo tipo... famílias com crianças, casais de idosos, descolados, intelectuais, intelectualóides, adolescentes... enfim, várias pessoas. No começo me irritei com uma possível falta de organização dos funcionários, já que havia uma fila e pessoas entravam sem ficar na fila! Uma mulher que estava atrás de mim foi tirar satisfação com o segurança e ele a disse que algumas pessoas tinham monitoria agendada e por isso não precisavam ficar na fila! E até disse que se ela não quisesse ficar na fila era só ligar lá em horário comercial e agendar a sua visita. Esse serviço existe e é de graça... ou seja, você que está lendo isso aqui pode formar um pequeno grupo e tentar fazer isso!
Outro motivo de pessoas entrarem sem ficar na fila é que a tal fila era para ver a exposição como se devia: começando pelo terceiro piso. Quem ficasse contente em ver só o subsolo poderia entrar sem fila... Bom, sem fila "mais ou menos", já que também tinha uma fila para ir ao subsolo. Parei de reclamar da fila e resolvi curtir!

Conheci Escher na época da faculdade. Lembro de passar horas olhando para suas obras reproduzidas em livros imensos (e caros, que nunca pude comprar) na biblioteca. Ele sempre me fascinou com suas formas impossíveis e improváveis, com seus desenhos tão realistas, mas tão oníricos ao mesmo tempo.

Estar ao vivo, ao lado de obras de Escher foi uma experiência muito boa para mim. Apesar de já ter viajado um pouco e conhecido vários museus por ai, nunca tinha visto tantas obras desse holandês... nunca tinha visto ao vivo imagens que sempre considerei sensacionais, como essas:





Claro que o fato de eu ser "louca" por esse artista ajudou eu gostar da exposição.

Gostei de ver obras que tanto gosto ao vivo, gostei de ver tantas crianças, jovens, adultos e idosos maravilhados... curtindo, rindo... fazendo comentários empolgados! Isso, pra mim que sou arte-educadora, supera os pequenos problemas de curadoria.

A proximidade entre as obras que foi criticada por alguns é algo que, infelizmente, vemos por toda parte! mesmo museus grandes e respeitados como o Louvre (Paris) ou o Metropolitan (Nova York) fazem esse tipo de coisa. Fui em uma exposição super bacana do Kandinsky no Guggenheim NY e também critiquei o pouco espaço entre as obras, mas depois de ouvir o comentário de algumas pessoas percebi que isso é uma opção muito comum de curadores atualmente, pois faz com que mergulhemos no universo do artista. Enquanto nossos olhos estão fixados em uma imagem, vemos (sem nos dar conta) outras obras... e isso colabora para a imersão no universo do artista. Há quem diga que nosso cérebro até guarda mais aquilo que vemos sem nos dar conta do que aquilo que prestamos bastante atenção. Olhar pra uma imagem e ficar concentrado nela é sensacional... pra ler, pra curtir... Mas não há problema em ela estar próxima de outra. Nossos olhos são seletivos! É até bacana pra "brincar" de figura-fundo - como tantos artistas ao longo da História da Arte fizeram.

A exposição trazia vários textos curtos e superficiais sobre o artista e suas obras. Penso que a opção partiu da ideia de que a maioria das pessoas não lê os textos nas exposições. Não lêem por que são longos, por que são complexos demais ou por falta de interesse mesmo. Pra mim que sou historiadora da arte e, portanto, tenho um conhecimento técnico sobre arte maior que o dos leigos, achei simples demais... mas, não acho que os textos das exposições devam ser complexos... afinal, já disse... textos complexos afastam o público. Parto do princípio de que quem quiser conhecer mais o artista irá procurar em livros, na Internet...  Não estou dizendo que as pessoas leigas em arte não merecem conhecer mais um artista... Se pensasse assim não seria professora! Mas acho que uma exposição não é o lugar para se sair especialista. Uma exposição é o lugar pra se conhecer... pra ser "tocado". Como ADORO imagens, acredito que é mais importante VER do que LER sobre o artista. Muitas vezes os textos fazem com que a visão seja racional demais... limitam, bloqueiam a contemplação espontânea. Por isso gostei dos textos da exposição no CCBB. Nunca vi em uma exposição tanta gente parar pra ler os textos... além disso, eram acessíveis. Crianças liam e entendiam! E repito: aqueles que gostaram das obras certamente irão atrás de mais informações! É assim que deve ser!

A exposição também conta com alguns vídeos, esse é um deles. Achei sensacional! Essa gravação não está tão boa, mas dá pra ter uma ideia do que é! 


Outro vídeo bastante concorrido era um filme em 3D de 8 minutos pelas construções de Escher. Era preciso pegar ingresso na bilheteria (gratuito). Não eram um "Avatar" da vida, mas foi divertido! É bem legal ver que mesmo o que parece não é! rs! Eu tenho problemas com 3D! Demoro pra acostumar e, como uso óculos, sempre tenho problemas em ver a imagem direito! Como alguns brincam, eu sou "chique" e só consigo curtir 100% cinema 3D se for IMAX! (porque os óculos são imensos e consigo colocá-los sobre os meus sem incômodo)... por isso, normalmente, fujo dos filmes 3D em salas normais. Ainda assim fui, nem fiquei enjoada! hehehehehe! Foi bacana, simples... como já mencionei, mas bacana.


Esse vídeo mostra mais ou menos o que vemos no filminho 3D. A qualidade desse vídeo está ruim e há um narrador falando em inglês.

Nessa exposição há um pouco de interatividade. Notem que disse "um pouco"! Bom, não culpo o CCBB já que o artista nunca fez nenhuma obra que o público interagisse fisicamente (tocando, entrando na obra fisicamente). A interação de Escher com o público era mental.
Algumas instalações foram criadas a partir de obras famosas. Divertido! Poucas coisas e bem simples, mas divertido!
Há uma salinha chamada "casa de Escher" no subsolo que reproduz a sala em que ele fez algumas obras (como aquela que eu coloquei acima, que ele segura a esfera de vidro espelhada). Você pode se sentar na cadeira e segurar a bola! E verá você no lugar dele! Bom, isso se você tiver sorte de a sala estar vazia ou então as pessoas que estiverem lá dentro com você forem camaradas e não ficarem tão no meio do caminho. Tive essa sorte! As pessoas foram legais!

Há também um documentário sobre o artista. Muito poucas pessoas ficavam para vê-lo (já que tem mais de 50 minutos). Eu entendo que ficar uma hora vendo um documentário não é (definitivamente) atrativo. Mas ai entra aquele papo sobre os textos simples. A pessoa que tiver interesse vai querer saber mais e ai, o documentário pode ajudar! Eu, se fosse curadora, teria feito a mesma coisa. Informações simples pro público geral e mais completas para os que tem interesse.

O que vale é que a exposição tem várias obras sensacionais! vale demais a pena ver e curtir! Saiba apenas que está bem lotada! Segundo uma segurança muito gente boa que conversou comigo, todos os dias estão bem cheios... mas é claro que aos finais de semana fica um pouco pior. O melhor dia, pra quem tem tempo, parece que é a terça-feira.

A exposição vai até dia 17 de Julho. Terça a domingo. GRÁTIS!

PS.: o catálogo da exposição custa R$ 80,00 e ainda não comprei o meu por problemas técnicos ($$$)! rs
(portanto não posso dizer se é bom e se vale a pena o investimento).

Vejam... aproveitem, comentem!