sábado, maio 29, 2010

A Academia Imperial de Belas Artes

Em 1826, dez anos depois da chegada da Missão Artística Francesa, a ACADEMIA deixa de ser apenas uma idéia.

O grupo original já não existia. Alguns tinham morrido, outros, como Taunay, voltado pra Europa. Só sobraram Debret e Grandjean de Montigny.
Nem o país era mais o mesmo, em 1822 acontece a Independência e com isso, surge uma temática nacionalista nas artes em geral: era necessário se escrever a história do Brasil e criar uma iconografia que fosse nacional. Retratos de personalidades e fatos históricos tomaram conta da pintura acadêmica, inspirados em mestres de Roma e Paris e com os quais os jovens pintores brasileiros iam estudar em viagens patrocinadas pelo governo imperial.

Principais artistas da AIBA



Víctor Meirelles (1832-1903)

Victor Meirelles foi o primeiro grande aluno da Academia Imperial de Belas Artes, a AIBA. Em 1852 ele recebeu o tão desejado prêmio de viagem e foi para Roma estudar no ateliê de Tommaso Minardi.
É dele o primeiro quadro brasileiro, de tema brasileiro e feito por um brasileiro a ser exposto em Paris: isso aconteceu em 1861 e a obra é A primeira missa no Brasil.


Primeira missa no Brasil (1860)
Óleo sobre tela, 268 x 356 cm
Rio de Janeiro, Museu Nacional de Belas Artes


A carta de Pero Vaz de Caminha havia sido publicada em 1817 e se tornou popular entre os intelectuais da época. A obra monumental de Meirelles foi inspirada em seus relatos e se transformou na primeira pintura histórica nacionalista no império de D. Pedro II.


Pedro Américo (1843-1905)

Pedro Américo foi um garoto prodígio. Aos nove anos foi contratado pelo naturalista francês Brunet, para fazer os desenhos científicos da flora nordestina. Matriculou-se na AIBA com apenas 13 anos de idade e se transformou em um dos artistas mais conhecidos do Brasil.
Em 1859, antes de terminar seu curso na Academia, vai para Paris, com um auxílio particular do imperador para custear seus gastos.
Modernizou a Pintura Histórica brasileira, usando amplamente a fotografia, da qual tinha se aproximado na Europa, como modelo em seus retratos. Sua tela “A batalha do Avahy”, de 1877, foi considerada a maior obra de arte que o Brasil já havia possuído até então.
Uma de suas obras mais conhecidas é, certamente, Independência ou morte (O brado do Ipiranga) feito a pedido do imperador D. Pedro II em um momento de forte declínio do império, para elevar o espírito nacionalista e valorizar o imperador.


Independência ou morte (O brado do Ipiranga) (1888)
Óleo sobre tela, 760 x 415 cm
São Paulo, Museu Paulista



Curiosidade
Por volta de 1870, Pedro Américo recebeu a encomenda de uma grande tela sobre a batalha dos Guararapes, mas ele recusou a oferta e partiu prontamente para Florença, na Itália. A oferta foi feita então a Víctor Meirelles, que também era um grande artista da época, que aceitou a encomenda.
Nesse meio tempo, Pedro Américo sabe do ocorrido e resolve também pintar uma grande tela com o mesmo tema de batalha. Escolhe a Guerra do Paraguai, mais precisamente a batalha do Avahy, e quando o quadro fica pronto vem para o Brasil e consegue com que as duas telas sejam expostas juntas.
A comparação foi inevitável. Todos se perguntavam quem seria o maior pintor brasileiro. Na ocasião a obra de Pedro Américo recebeu os louros da vitória por representar de fato uma batalha acontecendo. O quadro de Meirelles foi considerado sólido demais.
Ainda hoje essas duas obras são mostradas lado a lado e, dessa maneira podemos fazer a comparação e tirar nossas próprias conclusões.

Compare você mesmo:



Pedro Américo: Batalha do Avahy (1877)
Óleo sobre tela, 600 x 1100 cm.
Rio de Janeiro, Museu Nacional de Belas Artes.



Victor Meirelles: Batalha dos Guararapes (1879)
Óleo sobre tela, 494,5 x 923 cm.
Rio de Janeiro, Museu Nacional de Belas Artes.


Almeida Junior (1850-1899)

Almeida Júnior ingressou na AIBA em 1869, onde estudou pintura com Victor Meirelles. Concluiu seus estudos em 1874, mas não concorreu ao Prêmio de Viagem, como seria usual, já que era um grande aluno e retornou a sua cidade natal, Itu. Abriu ateliê particular em 1875 e atuou como retratista e professor de desenho. O imperador D. Pedro II, em uma viagem pelo interior de São Paulo, conheceu a obra de Almeida Junior e teria se impressionado com seus trabalhos. Com isso lhe deu uma bolsa para estudar na Europa.
Quando volta da Europa desenvolve em São Paulo uma pintura realista, mostrando a realidade urbana e também rural. Almeida Junior faz o que vinha sendo feito na Europa: coloca temas cotidianos em quadros enormes, valorizando, portanto, o dia-a-dia em detrimento das cenas históricas, que até então predominavam na pintura brasileira. Ficou muito conhecido por suas figuras de caipiras.

A leitura (1892)
Óleo sobre tela, 95 x 141 cm
São Paulo, Pinacoteca do Estado


Caipira picando fumo (1893)
Óleo sobre tela, 141 x 202 cm
São Paulo, Pinacoteca do Estado


Conclusão

A pintura acadêmica do Brasil, apesar de ter como base a arte tradicional e clássica, desenvolveu duas tendências muito marcantes:

  • Tendência Romântica
  • Tendência Realista

A primeira pode ser vista nas pinturas de caráter histórico, nacionalista e indianista, sobretudo nas obras de Victor Meirelles e Pedro Américo. A tendência romântica também pode ser relacionada ao Império. Já a tendência realista pode ser vista nas pinturas que trazem cenas comuns, costumes e tipos regionais, sobretudo nas obras de Almeida Junior. Essa tendência também pode ser relacionada ao início da República.

terça-feira, abril 13, 2010

Enfim 2010

Olá pessoas

Espero que ajude; sempre pensei na utilidade pública e cultural desse Blog. Vejam, leiam, participem.

Prometo dar mais atenção a ele!


Link para um post sobre o Período Pré-Cabralino

http://prosalunos.blogspot.com/2008/04/brasil-antes-da-chegada-de-cabral.html



Link para um post sobre Barroco Brasileiro:

http://prosalunos.blogspot.com/2008/04/barroco-brasileiro.html

http://prosalunos.blogspot.com/2008/04/barroco-mineiro.html

Este aqui é o link pro site da unesco pra quem tiver interesse em conferir a lista completa dos Patrimônios da Humanidade.


Lembrem-se... pra gente, o importante são os brasileiros.

http://whc.unesco.org/en/list


Este aqui é outro link sobre os Patrimônios... mas que dá destaque aos brasileiros. Só pra lembrar, as informações desse site vieram do livro "Conhecendo os Patrimônios da Humanidade no Brasil", de Percival Tirapeli (um dos maiores pesquisadores sobre o barroco brasileiro e meu ex professor da faculdade)

http://www.universia.com.br/especiais/patrimonios_historicos/index.htm



Abraço a todos!

domingo, novembro 29, 2009

Volpi e poesias

(misturando um pouco pintura e poesia)

Alfredo Volpi.
Fachada das Bandeiras Brancas, déc. 1950.
Óleo sobre tela, 155 x 102 cm. Coleção Particular


A obra de Alfredo Volpi, Fachada das Bandeiras Brancas, é uma obra bastante simples do ponto de vista técnico. Apresenta apenas três cores: branco, azul e marrom e, as formas escolhidas pelo artista também são muito simples. Bandeirinhas são quadrados recortados por triângulos, telhados são retângulos marrons horizontais e as portas, retângulos verticais. Cada porta tem batentes brancos que formam arcos compostos por quatro triângulos marrons. Tudo muito simples. Apesar das poucas cores e formas, vemos claramente as casas, a rua e até profundidade no chão de terra batida.
O conteúdo do quadro é muito simples: casinhas em estilo colonial, muito humildes, bandeirinhas que são usadas nas festas populares, a economia das formas e das cores.
Não posso ficar apática ao olhar para essa tela. Sua simplicidade me remete à minha infância simples em uma pequena cidade do interior de São Paulo. Na época, a rua em que vivia era repleta dessas casas e o povo enfeitava as ruas de bandeirinhas na época das festas. Não só nas festas juninas como muitos pensam, e de pronto rotulam as obras de Volpi, mas em todas elas. As bandeirinhas eram símbolo de festa e se havia alguma, lá estavam elas para colorir a cidade.
Minha origem simples também fez com que me identificasse com os poemas “Ditirambo”, de Oswald de Andrade e “Cidadezinha qualquer” de Carlos Drummond de Andrade, que, assim como a obra de Volpi, falam de simplicidade. Esse foi o verdadeiro motivo pelo qual escolhi esse conjunto para comentar.

Ditirambo

Meu amor me ensinou a ser simples
Como um largo de igreja
Onde não há nem um sino
Nem um lápis
Nem uma sensualidade
(Oswald de Andrade, Pau-Brasil, p. 99)

Quando leio “Meu amor me ensinou a ser simples” penso em minha cidade. Ela é o sujeito de minha leitura desse poema. Foi ela quem me ensinou a ser simples “como um largo de igreja”. Foram as fachadas coloniais, as bandeirinhas que me fizeram ver as coisas simples e valorizá-las.
Quando penso sobre o título do poema: “Ditirambo”, penso no significado simples dessa palavra. Ditirambo é uma poesia lírica que exprime entusiasmo ou delírio. Também era o canto em honra ao deus Dionísio. Sai da cidadezinha simples das casinhas coloniais e das bandeirinhas para estudar teatro, a arte abençoada por Dionísio, em uma cidade grande. O contraste entre o simples e o complexo sempre me chamou a atenção. Por esse motivo, assim como Oswald, me entusiasmo com o simples. Foi o meu amor que me ensinou a ser assim, não foi qualquer um. Foi meu amor que me ensinou a ver beleza no pouco, no mínimo. A buscar o simples no meio da confusão. Como as bandeirinhas de Volpi.
Me chama a atenção o fato de elas não seguirem exatamente o mesmo padrão. Há três fileiras de bandeirinhas, mas a de cima parece destoar das duas de baixo. Apesar de terem a mesma cor e estar em mesmo número, a primeira fileira não acompanha a simetria das outras duas, como se estivesse em outro plano ou então, como se simplesmente estivessem assim para causar estranhamento. Talvez Volpi preferisse deixar assim para que o quadro não ficasse tão estático, talvez quisesse mostrar que as bandeirinhas feitas pelo povo não seguiam exatamente o mesmo padrão, já que muitas mãos ajudavam a colocá-las no alto. Lembro-me novamente de minha infância. Sentada no chão da calçada, tesoura na mão, cortando bandeirinhas. Cola de trigo para prendê-las no barbante e depois a briga entre a criançada para ver quem ajudaria a pregá-las no alto. Sempre ficavam tortas, mas nunca ficavam tristes. Quantas mãos ajudavam nesse labor. Elas eram sempre simples, mas nem por isso deixavam de ser a principal marca das festas. Quadradinhos de papel de seda que tirávamos os triangulinhos. Tão pouco, tanta alegria.

Cidadezinha qualquer

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

(Carlos Drummond de Andrade, Alguma poesia, coligido em Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002, p. 23)

O poema de Carlos Drummond de Andrade fala de outras tantas coisas que me fazem lembrar esse tempo. As “casas entre bananeiras”, as “mulheres entre laranjeiras”, o “pomar”. Tanta coisa simples, mas ao mesmo tempo com tantos significados para mim. Na minha realidade não eram apenas as casas na roça que tinham jardim e pomar, mas as casas da cidade também. Lá era assim – ainda continua um tanto assim em um tanto de lugares. Lá, a vida vai mais devagar. Lá as mulheres conversam entre as laranjeiras. Lá as casas estão entre as bananeiras.
Graças a minha vivência pude entender o poema “Cidadezinha qualquer”, porque vivi em uma cidadezinha qualquer, aonde “um homem vai devagar”, “um cachorro vai devagar”, “um burro vai devagar”. Mais uma vez vejo a obra de Volpi e sinto que as pessoas que habitam aquelas casinhas, vivem assim: devagar. A simplicidade é calma. A simplicidade não exige que tenhamos pressa.
Já vi muitas pessoas que, ao olharem para obras como essa, de Volpi, sentem tédio. Elas parecem se incomodar com a simplicidade da obra, com a falta de informações, com a calma. Talvez por serem pessoas que não conhecem o “devagar”, talvez por não terem aprendido a ser simples “como um largo de igreja”. Na cidade em que se corre, Volpi pode incomodar.
Ao terminar sua poesia com “Eta vida besta, meu Deus.”, Carlos Drummond de Andrade pode parecer uma dessas pessoas. Não entende a “vida Besta” de quem anda no lugar de correr. Mas será que é besta? Será que viemos ao mundo para correr? Prefiro “pomar amor cantar”. Por outro lado, a expressão “Eta vida besta, meu Deus” pode também se referir ao linguajar desse povo. Pode ser um suspiro desse pobre que vive a vida devagar. Já que a vida nas cidadezinhas não é um mar de rosas.
Sempre vi as bandeirinhas de Volpi como símbolos do simples, do povo, do pobre. Não há glamour nessa vida, e sim muito suor e muita labuta. O bonito é que mesmo com todos os problemas, com todas as dificuldades, a vida continua sendo celebrada. As bandeirinhas continuam a ser feitas e penduradas no alto, as pessoas continuam cantando e amando. E a cidadezinha qualquer continua ensinando que o importante são as pequenas coisas, as coisas simples. Continua ensinando que o pouco pode ser mais, desde que tenha significado.